A imigração costuma ser narrada como uma grande conquista. Fotos de passaportes carimbados, novas paisagens, uma moeda mais forte. No entanto, há um passageiro silencioso que embarca conosco e que raramente ganha destaque nas redes sociais: o luto migratório.
Diferente do luto tradicional, marcado por um fim definitivo, o luto de quem cruza fronteiras é ambíguo. É o luto por uma versão de si mesmo que ficou para trás. Quando você muda de país, não perde apenas o seu endereço; perde a padaria da esquina que sabia o seu pedido, o cheiro familiar da chuva na sua cidade, a facilidade de fazer uma piada no seu idioma materno sem precisar traduzir o contexto.
Esse processo de desconstrução psíquica é exaustivo. Muitas vezes, o expatriado sente uma culpa profunda por estar triste quando "deveria estar feliz" por ter alcançado o sonho de morar fora. Mas a verdade clínica é que toda transição exige uma despedida.
O espaço terapêutico, nesse contexto, funciona como um território neutro. Um lugar onde é permitido falar português com todas as suas gírias, onde a saudade não é vista como fraqueza, mas como testemunho daquilo que importou. Elaborar o luto migratório não significa esquecer de onde viemos, mas construir pontes internas firmes o suficiente para que possamos, finalmente, habitar o nosso novo destino por inteiro.